domingo, 19 de fevereiro de 2017

Desmonte da Petrobrás compromete desenvolvimento do Ceará

O desmonte da maior empresa brasileira – a Petrobrás – caminha a passos largos, com a mesma desfaçatez do golpe que tinha como objetivo realizá-lo. Agora que a política econômica abraçou de vez o neoliberalismo, preconizada no programa “Uma ponte para o futuro”, o objetivo é aprovar leis que entreguem o patrimônio público de bandeja para o capital estrangeiro, como o PL 4567/16, que retira da Petrobrás exclusividade na exploração do pré-sal. A venda de unidades da estatal e campos de petróleo conclui o seu desmonte pelos golpistas, que no Ceará foi posta em liquidação. Toda a presença da Petrobrás no estado está afetada, e os prejuízos serão incalculáveis, tanto em termos de arrecadação, como em infraestrutura.

O que só se justifica como “uma retaliação política”. Segundo declaração do ex-presidente do Sindipetro CE/PI, Orismar Holanda, a celeridade no desmonte se deve a que “boa parte dos parlamentares do Ceará foi contra o impeachment, a gente analisa e percebe a possibilidade de ser uma penalização com o estado, pela forma como ele se portou neste momento político, uma coincidência interessante”.

Ainda no primeiro semestre de 2016, a Petrobrás anunciou a venda de concessões dos dois campos produtores de petróleo em terra (Fazenda Belém), localizados entre Aracati e Icapuí, que geram cerca de 400 empregos (diretos e indiretos) e já tem mais de 35 anos de produção. A produção média da Fazenda Belém é de 1.500 barris por dia. Recentemente, foram perfurados cerca de 120 poços e há perspectiva de perfurar mais 800 poços. Mesmo dando lucro à própria estatal e ao Ceará, os campos paralisarão as atividades até que encontrem comprador.

O fim da extração nestes campos compromete a cadeia de produção no estado, pois a Fazenda Belém representa 20% do petróleo processado pela Lubnor (Refinaria Lubrificantes e Derivados do Nordeste). Sem contar que, além da produção de petróleo, o campo da Fazenda Belém tem um potencial de irrigação com água residual de até 150 hectares para produção de palma, utilizada na produção de biocombustíveis.

Em julho, a estatal comunicou que também estava colocando à venda seus quatro campos em águas rasas (Atum, Curimã, Espada e Xaréu), que ficam no litoral de Paracuru (CE) e contam com nove plataformas no total.

O prejuízo econômico disso iniciará um desastroso efeito dominó não só para o Ceará, mas comprometerá a principal estatal brasileira - como frisou Dedé Teixeira, ex-prefeito de Icapuí, em audiência: “Esse fechamento não afetará só Icapuí e Aracati, mas toda uma cadeia de produção no Ceará, pois [Fazenda Belém] tem uma parceria com a Lubnor em Fortaleza”, disse.

Para completar, a Petrobrás anunciou, em junho, a venda da TermoCeará, usina termelétrica que tem 220 MW de potência instalada, localizada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), e do terminal de regaseificação do Ceará, que fica no Porto do Pecém e fornece GNL (Gás Natural Liquefeito) para a própria TermoCeará e também para a TermoFortaleza.

Mas, o que não for vendido será sucateado. É muito grave o desinvestimento acelerado na Lubnor, uma das principais unidades da Petrobrás no estado, a contribuir de forma significativa para a produção nacional de asfalto. Além disso, é a única refinaria no Brasil que processa petróleo naftênico, apropriado para lubrificantes de alta estabilidade, isolante térmico de transformadores de alta voltagem, graxas especiais e óleo de corte para a indústria metalúrgica e de refrigeração. A refinaria ainda produz combustíveis empregados na turbina de navios.

Revanche contra o biocombustível

De todo o desmonte, o fechamento unilateral da Usina de Biodiesel de Quixadá (PBio) é talvez o mais imoral e deixa explícito o raivoso sentimento de revanchismo contra um dos mais importantes legados dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), que é a diversificação da matriz energética brasileira, mediante novas fontes de energia limpas e renováveis. A capacidade de produção em Quixadá é de 108,6 milhões de litros de biocombustíveis por ano. A média de produção diária é de 250m³ de biodiesel.

A operação movimenta cerca de 10 carretas por dia, somente com o carregamento do biodiesel puro. No processo de produção, a Biodiesel de Quixadá conta com 162 profissionais, a grande maioria deles do próprio município.

Quixadá é uma cidade do sertão central do Ceará, no meio do semiárido, e viu a economia local mudar radicalmente com a usina. A agricultura familiar de mamona é base da produção de biocombustíveis, de grande importância para essa região do estado, e beneficiam cerca de 9 mil pessoas. Por isso que a decisão do governo biônico de encerrar a produção do biodiesel causa preocupação, pois enfrentar o sexto ano da mais severa seca em 100 anos sem esse aporte é como ser entregue à própria sorte.

É tão evidente o espírito de revanche que nem a falácia de que o biocombustível dá prejuízo se sustenta. Somente no último ano, atestamos a valorização de 28% dos preços de óleos vegetais nos mercados internacionais. Então, qual é a desculpa para o fechamento da usina de Quixadá?

Sucursal CE

FONTE: Jornal Inverta
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